Eu acho que eu gosto de você porque nós somos diferentes do mundo. Nós ficamos ali como uma sobra de vida, de tudo que é bom e ruim, a parte que ninguém quis. Eu acho que eu gosto de você porque quando eu fico sozinha – sozinha de verdade – aparece aquele fantasma do espelho que me lembra de tudo que não sou. E isso me faz lembrar você. Você se vende ríspido e seguro e eu sensata e segura, mas tem uma coisa que só a gente sabe que existe. Ela é grande e nos deixa pequenos e quando eu te abraço, nossas coisas juntas fazem eu me sentir maior. É por isso que eu gosto de você. Algumas pessoas acham que você é louco, mas eu não sei o que elas pensam de mim, o que elas não sabem é que vivemos com o que sobrou do mundo. É fácil ser normal quando se é maioria. É fácil julgar quando se é maioria. É fácil ser maioria. Eu quero ser. Talvez você não. Mas, talvez eu só pense isso porque você não finge bem. Porque você não liga para o cabelo bagunçado e impede que te decifrem como uma mensagem em código Morse. Vai ver você nem quer fingir. Nós não somos iguais, somos só diferentes do mundo. E todas as vezes que eu vejo tudo que podia ser meu – e não é –, todas as cenas simples para todos eles e quase impossíveis para mim. Todas essas vezes, eu tenho vontade de abraçar o resto do mundo que lhe cabe e me sentir um pouco maior. Amparada. E agora que você me deixou e tirou a única coisa que me completava quando a maior parte do mundo mandava eu sair, estou aprendendo a vivermos apenas eu e o meu fantasminha do espelho, nem sempre camarada. Companheiro. E ai eu fico aqui lutando sozinha comigo mesma sem o seu olhar para me entender e mostrar que caminho seguir, sem uma única palavra. Sem dizer o que devo fazer com seus enigmas que fazem todo sentido. Eu gosto de você. E por mais complexo que pareça, isso é muito simples para mim.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
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