quarta-feira, 17 de março de 2010

Em frente

O número familiar na tela sucumbiu minha respiração. Atendi. Desci. Parei na escada por cinco segundos e rezei. Eu preciso de forças extras para enfrentar isso. Isso que acreditava já ter acabado. Só longe estou totalmente protegida, bem longe, exilada no meu país secreto de faz de conta. Mas, você ali na minha frente mais uma vez era real. Meu coração fervia mais que o sol. Minha expressão, congelada. Ainda bem que meu corpo não depende de mim para respirar. Será que ninguém entendeu que eu estava fugindo? Você me passou o envelope branco e lembrei da existência daquele remoto motivo. Um motivo mais importante do que eu, inclusive. Cadê o botão escrito: “Desmaterializar”?. Odiei o envelope, a minha roupa, o meu cabelo, as palavras mal escolhidas, mas não odiei você. Eu odiei você! Eu tô odiando isso. Cadê a merda do botão escrito: “Desmaterializar”?. Eu quero minha paz de volta servida em uma bandeja como prato principal. Eu quero você fora daqui. Fora de mim. Eu não preciso de uma última conversa ou um último beijo. Eu nem precisava te ver pela última vez (e que essa seja a última vez). Eu só preciso de paz. Eu só preciso esquecer... e eu estava quase lá. Não sei se me dói mais ficar sem você ou essa sensação de ter dado um passo pra trás no meu plano (quase) secreto de fazer com que você nunca tenha existido na minha vida. Subi com meu pulmão ligado no piloto automático (Eu estou ligada no piloto automático!). Entrei. Fechei a porta. Sentei. Eu não devia ter olhado pra trás.

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