quinta-feira, 19 de março de 2009

A primeira vista

Atravessou a rua – na faixa – de vestido surrado, trouxa na cabeça, chinelinho gasto e quase sem solado. Ligeira. Só faltou a mão nos quartos. Vida sofrida, dava pra ver de longe. Foi inevitável não pensar que ela não deve sofrer de amor. De repente, me veio a cabeça que esse negócio de sofrer de amor não é para todos. Não sei se trata de um privilegio ou de uma futilidade, mas com certeza não é para todos. Talvez quem tenha preocupações reais e físicas não dê bola para aquelas necessidades abstratas. Pessoas miseráveis amam? Não tenho certeza. Também não gosto da palavra “miseráveis”, só que me parece óbvio que elas possuem coisas mais importantes e valorosas na vida triste e sofrida que levam. De repente, amar me pareceu fútil.

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