terça-feira, 31 de março de 2009

Parte II

Quando percebi estava parada ali, na porta do banheiro, inebriada por aquele cheiro que já não sentia havia alguns dias. Muitos dias. Você sorriu e anunciou como a água estava fresca e convidativa. Mas, eu preferi ficar parada ali, na porta do banheiro, sentindo outra vez aquele cheiro que havia trancado no armário por todo tempo que fiquei sem você. E assim, foi dada a largada mais uma vez.
E ouvir meu nome três vezes consecutivas, só porque havia ido até a cozinha, o fato de ter me acompanhado quando fui por dois segundos até o quarto, e toda aquela necessidade visceral de me ter por perto, me fez pensar que talvez você goste mesmo de mim.
No sábado, depois do minha solitária lamúria cheguei a conclusão que não cresci tanto quanto deveria, já que continuo cometendo os mesmos erros de quando tinha (apenas) 15 anos. Preciso esquecer esse meu complexo de perfeita aceitação. Rasgar a lista que criei com os 10 mil motivos pelos quais não devo ficar com você e, de alguma forma, me desprover dos conceitos lunáticos que muitas vezes não fazem sentindo nem para mim mesma.
Assim como Machado, tenho consciência que essas idéias fixas que coloco na minha cabeça e sigo com elas custe o que custar, não é saudável. Talvez, dar a largada mais uma vez seja o primeiro passo para viver algo realmente perigoso e real. É disso que eu preciso.
Agora, que tudo voltou ao normal – de uma forma diferente – não sinto nenhuma onda de entusiasmo ou euforia, só uma sensação suave como se fosse arrebatada pela utópica pacificidade mundial.
Ainda me sinto um pouco confusa e temerosa, mas é como se a corda bamba ganhasse alguns centímetros e fosse promovida a ponte do rio que cai. Se eu fizer a coisa certa e seguir na linha sem praticar minhas costumeiras bobagens, chego lá. Não lá, no “felizes para sempre” – por enquanto – mas, lá na prática da minha maturidade sentimental, lá na decadência do conceito da idéia fixa, lá no desuso dos meus conceitos lunáticos, lá na multiplicação das frações de segundo em que fico parada na porta do banheiro sentindo aquele cheiro.

terça-feira, 24 de março de 2009

A especialista

Estou me transformando em uma especialista de mim. Essa coisa de ficar sozinha, de pensar na vida enquanto tento fugir de Faustão, de não ter tempo limitado para tomar banho, ninguém batendo na porta. Especialista de mim.
Às vezes, até canso de tanto pensar e refletir e ruminar.
Canso de me sentir uma ruminante de sensações, remascando o que existiu e o que nunca aconteceu. Lembrando do que foi escrito e do que se confunde no romance baralhado da minha vida – romance de narrativa, não de romântico.
Perdi a noção entre realidade e ficção. E o que eu vivo e o que gostaria de viver, o que poderia ser.
Realidade e ficção. Já não encontro limite em mim.
Nunca encontrei, embora tivesse esquecido disso. Esquecido desse pedaço fantasioso e criativo. Fantástico e assustador.
Acho tudo isso fantástico e assustador.
Me sinto tão complexa, simples, chata e dramática.
Me sinto tão preconceituosa e boba e inocente.
Me sinto tão esperta, vazia, inquieta.
Me sinto sedenta.
Intranqüila.
Valente e covarde.
Me sinto eu, eu e eu, de novo.
Sinto quando tinha 14, 17, 21 e 23.
Oca e cheia.
Me sinto estranha e, me entendo completamente.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Fôlego

Quando o rio é largo demais temos que erguer a cabeça para respirar. Quando a travessia é maior do que imaginamos não dá pra saltar e ir de vez por baixo da água até o outro lado. Eu pulei. Pulei e comecei a mergulhar, queria sair, óbvio! Mas, o outro lado não chegava nunca. Realmente é maior do que eu imaginei. O sentimento era maior do que imaginei. Não deu pra atravessar de vez, tive que levantar a cabeça pra respirar. Tomar fôlego. Às vezes, temos que voltar um passo para conseguir chegar até o fim. Estou aqui, com a cabeça erguida para tentar capturar o máximo de ar que eu conseguir para só então, continuar. Eu sei que é passageiro, sei que vou ter que enfiar minha cabeça na água outra vez e seguir nadando em frente. Eu sei. Tenho consciência que com isso talvez eu fique atrás alguns milésimos de segundos na chegada, mas não me importo. Eu também queria bater meu próprio recorde, mas prefiro isso do que afundar no fundo do rio, da piscina ou não sei mais onde. Parei para respirar. Tomar fôlego. Qual o pecado disso? Sim, corro o risco de agarrarem minha cabeça, me arrancarem da água e ser aprisionada. De qualquer forma eu iria conduzir meu corpo pesado e desacordado até o fundo. Parei para respirar. Ler suas frases cretinas e otimistas. Rir quando você fala sério. Te ver, quem sabe, e lembrar que tenho que mergulhar outra vez. Me encher de ar e esquecer que preciso me encher de você.

A primeira vista

Atravessou a rua – na faixa – de vestido surrado, trouxa na cabeça, chinelinho gasto e quase sem solado. Ligeira. Só faltou a mão nos quartos. Vida sofrida, dava pra ver de longe. Foi inevitável não pensar que ela não deve sofrer de amor. De repente, me veio a cabeça que esse negócio de sofrer de amor não é para todos. Não sei se trata de um privilegio ou de uma futilidade, mas com certeza não é para todos. Talvez quem tenha preocupações reais e físicas não dê bola para aquelas necessidades abstratas. Pessoas miseráveis amam? Não tenho certeza. Também não gosto da palavra “miseráveis”, só que me parece óbvio que elas possuem coisas mais importantes e valorosas na vida triste e sofrida que levam. De repente, amar me pareceu fútil.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Dia nublado (do meu jeito)

Cantei ainda na cama.
Janela aberta, dia nublado.
Adoro dias nublados.
Adoro dias.
Adoro.
Coloquei os pães de queijo no forno cantando, fui buscar a toalha cantando, tomei banho cantando, escovei os dentes cantando. Cantando peguei o vestido no (outro) armário.
Cantando e pensando que eu não tenho do que reclamar. Pensando que já foram tantas coisas legais.
E cara! não lembrei de nada triste.
Descobri que eu deleto fácil o que é chato. Coisas verdadeiramente chatas e dolorosas não existem na minha vida. As sensações não ficam, sabe... Sou uma pessoa otimista.
Eu sou.
E segui, cantando e pensando os dias nublados que me trouxeram até aqui.
Nublados e felizes.
Muitos querem a sol. Para brilhar, talvez.
Eu quero as nuvens.
As muitas nuvens brancas no céu azul em dia de praia. As nuvens escuras e espessas que guardam as gotas de chuva. Nuvens finas que compõem a lua grande e redonda.
Nunca gostei de andar no sol. Oh coisinha que cansa...
e, se eu quero viver muito, prefiro viver descansada.
Sou baiana, só quero sombra e água fresca.
A sombra das nuvens.
Quero os elefantes, os pássaros, os peixes, a coroa, poodles, unicórnios, jacarés e Falkor, o cachorro voador da História Sem Fim.
Todos feitos de nuvem.
Algodão doce.
As nuvens fofas e densas dos ursinhos carinhosos.
Adoro dias nublados.
Adoro meu dia.
E hoje, o que existe é a essência.

terça-feira, 10 de março de 2009

She-ra

O que realmente importa na vida não é quem você tem nela. Não é. Isso é tudo uma verdadeira baboseira. O que realmente importa na vida é o quanto você é forte. Forte para reagir quando te trancam no armário das pessoas que não fazem mais parte da vida (dela). O que realmente importa na vida é você e as paredes da sua casa que nunca te deixam sozinho e compartilham contigo as traças. O que realmente importa na vida é o quanto você é forte. Porque as pessoas um dia deixam você ou simplesmente deixam você se perder. Quando o coração das pessoas não pedem mais pelo seu, elas deixam você. Por isso, o que realmente importa na vida é o quanto você é forte. E se engana quem pensa que eu estou falando do amor. O amor dos casais. Casais discutem, reclamam, terminam e reatam. Pessoas que realmente importam para nós nos tranca na tal gaveta e pronto. É simples. É fácil. Para elas. E lá no escuro, às vezes, a gente vê as coisas continuarem acontecendo do lado de fora e lembra que nem sabe o motivo por te exilarem ali. Às vezes, a gente até sabe, mas é tão ridículo. As pessoas não podem ser tão ridículas. Por isso, o que realmente importa na vida é o quanto você é forte. Mas, essa lição não sou eu quem vai te ensinar. Eu até poderia dizer que ninguém vai. Você poderia passar sua linda vida sem aprender isso, mas um dia você aprende. Você não pede, mas alguém te ensina. E se engana quem pensa que são pessoas ruins. Não são. Por isso, o que realmente importa na vida é o quanto você é forte. Não, eu não perdi a fé nas pessoas. Longe disso. Eu só perdi alguém que era importante pra mim. Sem briga. Sem drama. Sem gritos. E sem diminuir o número de vezes que nos encontramos ou nos perdemos. Perdi. E é por isso que o que importa na vida é o quanto você é forte.

Lembranças

Ando sentindo a sua falta.
Não minto pra mim.
Não minto aqui.
Falta da sua conversa calada, da curiosidade vazia, do pequenino sinal marrom e do grande sinal marrom em forma de folha.
Ando sentindo a sua falta.
Falta o boa noite inesperado e o carinhoso bom dia programado.
Falta você.
E eu.
E o calor que faz na casa.
Assim me valho das lembranças.
E deixo sem sofrer.
Ando sentindo a sua falta, mas não dói sem você.
É como um final bonito e triste.
Um final que de tão bonito minimiza o fato de ser triste.
Assim me valho da beleza do fim.
Da beleza de nós.
Do pedacinho da sua beleza que ficou em mim.
Sem uma linha a mais.

Abrobrinha

E o telefone tocou. Tocou e tocou outra vez. Nada demais. Só pra saber como você estava. Pra saber. Ótimo. Se eu ainda estivesse doente, grávida, com algum problema grave; mas minha vidinha é tão normal. Não faz sentido você ligar só pra perguntar se eu estou bem. E depois que eu sentei novamente na mesa, pensando em pra que merda você ligou, olhei para o céu. Foi sem querer, juro. Mas, olhei. E ele estava tão limpo e estrelado como o do seu quintal. Pintado a pincel com tinta acrílica cintilante.