quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Aquela salada de frutas

Ele quase não vinha e, quando vinha ficava meses. Vinha quase sempre no fusca. Branco. Como ele. Cabelo grisalho. E comia arroz com vinagre. O almoço, o lanche, tudo mudava quando ele estava na mesa. Pouco sal e não sei mais o quê. Quando ele abria a geladeira e via que ela não estava dizia manso: - Faz aquela salada de frutas. E eu adorava. Coincidência – ou não – na sexta fizemos a salada de frutas. Ele adorava. Quando mais novo, era mais sério, fechado. Mas, depois que descobri seu romance, caiu na graça. Casa, casa, casa. Se ele cassasse ficava pra sempre. E eu gostava (muito!) dela. Ele não podia e eu não entendia por quê. Agora entendo. Andava devagar. Sempre calmo, sempre lento, limpando o fusca novinho. Companheiro de anos. Anotava a quilometragem. Era chato, não nego, mas me acostumei. Depois de um tempo só ria quando ele apertava a língua. Quanto mais velho, mais legal. Nunca pensei que um dia ele fosse tema, mas quem pode imaginar qualquer coisa nessa vida...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Pasárgada

Eu sou o sofá, a tv, e a brisa leve que faz dançar a cortina de renda que finge guardar uma privacidade que não existe. Eu sou o grito que vem do portão e todas aquelas pessoas que passeiam em frente a televisão. Furados, transparentes. E entro naquele vagão com cheiro de mofo aromatizado feliz em estar indo ao melhor lugar que eu poderia chegar. E quando vejo a grama verde, o muro verde (e vivo), o verde das folhas enormes das plantas enormes do jardim... eu sou aquele lugar. Cada célula, cada tossi, cada lágrima e todos os pensamentos complexos ou vazios. É ele. Sou eu. O ócio que me carrega sublime ao sofá enquanto esfregam o chão da varanda com água e sabão. Sou eu. É simples. É vivo. Eu só preciso me encher outra vez.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

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De repente, tudo ficou muito chato. Chato e cansado. Não cansativo, cansado mesmo. O cansativo ainda exala alguma energia. Sendo cansado mal se consegue pensar. Por isso, não indico esse texto para quem procura uma leitura inteligente. Na verdade, nenhum destes que aqui estão. Minhas bobagens. Meus dramas. Meus surtos. Mas, eu não quero falar sobre isso. De repente, tudo ficou tão chato. É sobre isso que quero falar.
E eu sei o que é, eu sei. Cada vez que eu recebia aquela mensagem eu tinha mais certeza que ia sentir falta dela. Cada novo dia que o bipe me acordava, eu tinha certeza que um dia eu ainda ia chorar por elas. Ela, na verdade. Era a mesma, repetidas vezes. E mesmo assim, eu lia. E ria. E as vezes sentia raiva, mas mesmo assim eu sempre ria. Era tão simples e tão significativo.
Estou aqui hoje. Estou aqui hoje. Estou aqui hoje.
Não era isso que eu lia, mas era exatamente isso que eu entendia. Era tudo que eu precisava. Por maior que fosse a briga ou a crise, logo cedo vinha a certeza. Estou aqui hoje. Tudo aquilo foi uma bobagem e eu continuo aqui hoje. Apesar de toda sua cena de ciúmes, eu continuo aqui. Mesmo você achando que eu não te quero, eu continuo aqui. Eu não te esqueci como os outros, eu continuo aqui. Era isso que eu entendia daquelas três palavras que formavam uma frase sem vírgula. E eu respondia com uma frase de quatro palavras e uma vírgula, que na maioria das vezes significava uma: obrigada. Às vezes, eu variava. As mulheres sempre têm mais coisas a dizer, mesmo sem escrever o que dizem. Eu disse. E você, não está aqui hoje.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Dia de chuva

O dia, finalmente, amanheceu chuvoso e eu acabei lembrando que ela (a chuva) me faz gostar mais de você. Dia escuro, gotas grossas e suaves, vento frio. E alguma coisa sopra dentro de mim alimentando aquela vontade de passar a vida inteira ao seu lado. É como se o inverno fosse tão claro e quente como o verão. É como se a chuva, o céu escuro e o vento frio me fizessem entender que se eu estiver com você o sol e o dia quente habitarão sempre dentro de mim. É como se a chuva cantasse, o vento cantasse, o bem-te-vi cantasse – escondido em um breve momento de estio –, e as gotas cantassem ao tocar o chão: “pode ser ele. pode ser mesmo ele. é ele.”. E faz crescer aquela sensação de que não era uma brincadeira de adolescentes. Isso não é de enlouquecer?
Eu sempre gostei do inverno. Sempre gostei das luzes do inverno, das pessoas mais bonitas, do riso suave ao observar o jardim inundar sentada na varanda. Sempre gostei do banho de chuva e da água que caia forte da bica, da lama quando ainda não tinha asfalto. Sempre gostei de deitar no sofá enrolada na colcha para assistir thandercats, ursinhos carinhosos, caverna do dragão, os smurfs e os outros desenhos da manhã. Mas, eu me esforço para entender porque tudo isso me faz gostar mais de você. Você nem gosta de chuva.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

05 de outubro

Cinco meses depois do dia 05 de outubro, parece que está (finalmente) chegando ao fim. E agora é inevitável sentir aquela dor leve e constante. Nos últimos dias tenho sentido uma dor leve e constante que parece pesar cada vez mais meu órgão-vital-pulsante. Talvez todo esse tempo ele não tenha estado vazio. Acho que isso é um lamento por ficar sem você. Cinco meses depois do dia 05 de outubro, quando achei que tudo acabaria, acho que está (realmente) chegando ao fim. E é como se nossas mãos se perdessem como naquelas cenas deprimentes dos filmes de drama; aquela cena deprimente que indica que as pessoas se perdem para sempre. E nos últimos dias só tenho pensado que eu posso realmente sentir a sua falta, por mais estranho que isso pareça. E aquela idéia que eu tive de te deixar simplesmente por um capricho social não me parece mais tão genial. Acho que não dá mais pra voltar atrás. Não dá mais pra voltar atrás no discurso que eu ensaiei ou no que eu prometi a mim mesma. Não dá mais pra voltar atrás em tudo que eu me fiz acreditar, muito menos nas concessões que eu estabeleci. E eu passei tantos dias criando toda essa coisa na minha cabeça, mas acho que só hoje percebi que eu gosto mesmo de você. Repeti muito isso, mas só hoje percebi que eu gosto mesmo. Ah, existe uma grande diferença entre gostar e gostar mesmo de alguém. Talvez eu esteja blefando. Talvez eu esteja assim só porque meu coração quer me provar que não é de ferro e está a fim de sofrer um pouquinho. Ele já me fez sofrer enganada várias vezes, achando que eu gostava de fulano ou sentia falta de cicrano, mas no fundo... ele só queria se sentir vivo. Tomará que seja isso. Tomará que eu faça a coisa certa hoje ou amanhã a noite. Porque cinco meses depois do dia 05 de outubro, parece que nós (infelizmente) estamos chegando ao fim.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Quero uma tv a cabo

Cheguei ao fundo do poço. O número do canal alí estampado na tela: 12. Estacionei o controle remoto no 12. Eu estava assistindo Raul Gil. O fundo do poço. Incontestavelmente, o fundo do poço. Pelo menos, Ivete estava no palco para assegurar minha dignidade. O dvd pifou na metade da sessão 3, de domingo. Bom, antes Raul Gil do que Faustão. Em 2009, não assistirei aquele pançudo das pernas finas. E não é porque ele é gordo; é chato demais!
E o chato em morar sozinha é não ter com quem compartilhar, efetivamente, o domingo. E, claro, não ter quem gritar quando se esquece a toalha. A síndica do meu prédio veio me devolver a chave reserva da porta principal. Pode ficar com a senhora. Afinal, o que vou fazer caso perca a minha? Pior, caso me tranque fora de casa de camisola e sem as lentes de conato? Já fiz isso.
Em que mundo a pessoa deixa a chave de casa com a sindica? No meu. É, eu ainda tenho um mundo. Resumido, menos complexo e modesto. Mas, ainda tenho um. E no meu mundo Faustão não entra. Raul Gil, acompanhado de Ivete, vá lá... de qualquer forma, é o fundo do poço.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Marco

Marco. Essa seria uma boa palavra pra definir você. Você que está sendo um marco na minha vida por me ensinar coisas que ninguém nunca me ensinou. E por deixar tudo turvo, só para eu aprender sozinha que posso fazer ficar claro depois. Visível. Assim, tenho pensado muito em seres humanos. As pessoas são tão medíocres. Elas podem puxar o seu tapete só para te ensinar a levantar – mesmo sem saber que estão fazendo isso. É tudo tão subjetivo e aparentemente bobo. É tudo tão real e sacana. É tudo tão meu. E o que é nosso não é você e eu. As pessoas são tão incríveis. E eu podia achar que você me tirou tudo, mas só consigo entender que você me deu tudo. Me deu um mundo diferente para viver. Um mundo bem real e, caramba! Eu sei viver no mundo real. Eu sei viver aqui onde todo mundo vive!!! E tudo que eu sinto é o que todo mundo sente. Tudo que eu sinto pode ser até mais brando do que todo mundo sente. Eu entendo. Eu entendo como uma boa filha de Deus, embora sinta e pense como ser imperfeito que sou. É como se tudo fosse volúvel.
– Olha a roleta da vida, vai girar...
Numa extremidade a fidelidade, na outra a traição. Mas, a paleta nunca acusa uma coisa ou outra. Não acho que é traição. Melhor. Eu não poderia achar. E aí entra aquela coisa que falei sobre julgamento. Não dá pra achar que você está certa ou errada. Alguém fazer algo que eu não espero que faça ou que eu não quero que ela faça ou que não ache certo, não é condenável. Já entendi isso. O mundo não é meu. Quando eu vivia no meu mundo, talvez eu pudesse. Acontece que você me tirou de lá. Você veio com o alfinete, explodiu minha bolha e eu percebi que podia respirar. Eu podia ter morrido, mas não. Aprendi a respirar esse ar leve e pesado, limpo e nojento. Eu posso respirar aqui fora. Eu posso respirar! Então, pode-se aprender com tudo na vida. Essa é uma verdade. Com pessoas que amamos e odiamos. Do melhor e do pior jeito. Eu não odeio ninguém, aprendo com quem amo. Do melhor ou do pior jeito.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Porque o imperfeito é perfeito

Existem dias que o mundo amanhece mais colorido. Ontem, eu queria falar sobre te olhar e não te reconhecer, te olhar e não me reconhecer, dormir enquanto você fica acordado e acordar para tentar te fazer dormir. Ontem. Mas, hoje o dia está mais colorido. Reflexões são normais. Sentar na beiradinha da cama e ficar te olhando de lado, no escuro, é normal. Não preciso surtar por isso. Nem terminar, nem mandar você ir embora, nem chorar. As coisas que não entendemos na vida é normal. Todas essas sensações que não consigo definir como boas ou ruins. Mutantes entre boas e ruins. É normal. Eu só preciso querer parar de entender tudo. Preciso parar de querer esmiuçar a célula do abstrato. Não dá pra entender, a vida definitivamente não dá pra entender. É tão bom quando a gente não pára pra ficar analisando como seria perfeito se fosse perfeito. Mas, pra que inferno criaram o perfeito se ele não existe? “Porque sem o perfeito não haveríamos como definir Deus”, vocês diriam. Então, eu tenho que parar de querer que tudo na minha vida seja Deus. Tenho que parar de desejar que ele seja Deus. Minha casa seja Deus. Meu humor seja Deus. Minha tv que chuvisca, o saldo da minha conta, meus amigos, a cadeira que dói minhas costas, minha barriga, a franja que ondula, os motoristas que não respeitam a faixa. Tenho que parar de desejar que o mundo seja Deus. Que o meu mundo seja Deus. Nada é perfeito. Só Deus é. E se eu sento na pontinha da cama e te olho de lado, no escuro, sem saber se eu te conheço ou se eu me conheço ou o quanto eu sinto falta de assistir He-man, à tarde, comendo pipoca doce. Dane-se! Eu não sou Deus. E é perfeito não ser. Eu tenho que entender que é imperfeito não ser. E isso não é ruim. Não, isso não é ruim.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ser frágil

Doeu. Não doeu fisicamente, mas aquela dor aqui dentro.
Dor e alívio.
Dor de alívio.
Mas, só doeu depois que tudo passou.
Depois que me percebi ainda perfeita.
Foi só um susto.
Mas, tudo deixa marcas.
Por menor que seja, deixa marcas.
Meu talhinho de 5cm deixou marcas.
E agora é assim.
Todas as vezes que alguma coisa acontece – por mais boba que seja – me lembro da minha marca.
Gotas vermelhas lembram a minha marca.
Não sou eu quem lembro.
É o eu.
O eu faz tudo tremer e ficar girando e girando...
O eu pede pra descansar e deixa minha boca amarelinha.
Foi uma bobagem para mim.
O que é 5 cm em 1,65m?
Mas, o eu é pequeno e grande.
E a parte frágil do eu é do tamanho de um grão de feijão.
5cm é muito para um grão de feijão.
E depois que tudo girou, sentei, melhorei. Cheguei em casa. Chorei.
Eu chorei.
Chorei porque tudo é tão pequeno e frágil e estranho.
O mundo é tão estranho.
Naquele dia, depois que saí do hospital, e me ligaram para falar aquela barbaridade sobre o meu pai, eu chorei.
Chorei de medo.
Tive medo desse mundo.
E tudo pode ficar realmente estranho.
E agora, com esse papo. História triste.
Tudo é tão estranho.
E tudo deixa marcas.
Tenho uma pequena marca.
Suportável.
Que me faz chorar de alívio.
O ser humano é tão frágil.
Ser humano é tão frágil.
Frágil ser.
Humano.