terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Carta

Já estava me arrumando para ir dormir quando me deu vontade de ouvir aquela música. Acho que nem deve saber que ela me faz lembrar você – já que ela não faz parte da nossa lista oficial de músicas – e, não lembra, na verdade. Fazer lembrar é diferente de fazer sentir. Aquela música me faz sentir. Senti outra vez. Havia muito tempo que eu não sentia aquilo que era tão corriqueiro. Eu tinha 15 anos. Senti como se ainda tivesse. E voltei a ter vontade de programar a nossa viagem, fantasiar encontros, imaginar diálogos, te fazer parar de ser manhoso e te dá um labrador de presente – para fazer companhia ao meu sharpei, naquela chácara que ainda não existe.
Ontem a noite voltei a desejar que você aparecesse na minha porta com o rosto escondido atrás de ramalhetes de margaridas. Me deu vontade de ler aquelas cartas outra vez. E rezar outra vez. E ver o dia nascer. E ouvir como nasce o sol carioca.
A música se repetia. E eu não senti vontade de chorar. Nem de sorrir. Só sentia. A menina cresceu. E você só percebeu isso porque não estava aqui. Não te contei sobre todas as minhas novas paixões, mas soube que você estava certo quando uma das antigas ficou para trás. Não compartilhei com você minhas paranóias, meu ciúme, minhas cólicas. Você nem sabe que eu quase não sinto mais cólica.
Mas ontem, percebi que nada mudou. E aquela história de “para sempre” é verdade. Caramba! Tudo aquilo é verdade. E os nossos cinco dias oficias continuam existindo (Natal, Reveillon, meu aniversario, seu aniversario e nosso aniversario). E disso eu tive certeza quando depois de meses e meses o identificador de chamadas acusou aquele número. O número que eu decorei desde que tinha 15 anos. E descobri que não tenho mais o seu número na minha agenda, mas eu sabia que era você.
E todo mundo pode achar isso uma verdadeira bobagem. Ou podem achar que sou promiscua, já que agora eu faço parte do grupo de pessoas que podem ser promiscuas. Mas, não é nada disso. É você. E nada de errado ou ruim acontece quando você também está no jogo. O que estou dizendo? Não existe jogo.
Ontem a noite, adormeci cheia de uma única e boa certeza. Eu continuo com 15 anos e, você continua aqui (mesmo longe).

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