terça-feira, 11 de novembro de 2008

Alforria

Não vou me surpreender se você parar de me ligar. Não irei ficar chocada se o bip de mensagem do meu celular parar de cantar todas as manhãs.
Chateada, sim. Chocada, não.
Eu sabia que podia acontecer. O problema é que só entendi isso quando fechei a minha bendita boca. Eu realmente podia ter dito tudo aquilo de outro jeito.
Um jeito mais doce, talvez.
Mais brando. Menos agressivo.
Talvez tenha sido o modo interpelativo que te fez olhar para mim com aquele olhar que eu não gosto e, falar comigo com aquele timbre de voz que detesto. Mas, eu não sei o que acontece comigo. Quando estou com você eu simplesmente não sei como agir, não sei defender o que penso – sobre nós dois.
Falo, mas sempre da maneira errada.
Agora estou com medo de não ter com quem falar no fim do dia.
Caso você pare de me ligar ficarei com raiva. Te xingarei algumas vezes e, não se engane, vou agredir verbalmente a sua mãe em vingança ao fato de não tê-la conhecido – pedirei perdão por isso (à Deus, não à você).
Talvez eu chore um pouco (agora sim, por você, pelos outros e por Deus, que sempre me faz passar por isso).
Se você parar de ligar, saberei o motivo.
Minha dúvida é como você vai parar.
Talvez devagar. Me procura assim, uma vez a cada três ou quatro dias, depois cinco, depois dez. Depois, a gente finge que fui eu que te dei um pé na bunda porque você já não me servia mais.
Talvez rápido. Deixa de me atender. Deixa de me ver. Deixa de me ligar.
Desaparece e, só.
Ainda que não tenha a minha permissão.

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