sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Hábito

O dia amanheceu preguiçoso. Sem tempo para pensamentos fúteis. Com planos desfeitos. Planos fúteis.
Sentei aqui antes do esperado e me deu vontade de escrever sobre você. De novo.
Há muito não faço isso.
E, dessa vez, quero falar sobre imunidade. Quero falar sobre borboletas que não voam. Sobre sorrisos que esqueceram segredos. Olhares sem graça. Hoje, quero falar sobre o que não aconteceu.
Ontem, adormeci pensando se havia acabado.
Todas aquelas vontades (quase) incontroláveis. A conversa sem palavras. Os abraços doídos que não podiam passar de... abraços. Aquela sensação que todos eram bobos e, nós os espertos que conseguíamos viver o que ninguém vivia, mesmo sem viver, de fato.
Acabou?
Sempre me vangloriei por fingir bem. Digna de uma boa seguidora de Fernando Pessoa, em sua Autopsicografia. “O poeta é um fingidor (...)”. Mas, dessa vez, talvez só dessa vez eu não esteja fingindo.
Estou imune a você e, desconfio que também esteja imune a mim.
Segundo o quinto verbete do Michaelis que está sempre ativo na área de trabalho do meu NB imunidade que dizer: estado de um organismo que resiste a infecções ou infestações por possuir anticorpos específicos contra o agente agressor.
Criamos anticorpos.
Se não fosse pelo hábito, talvez eu nem estivesse aqui.
Mas, estou.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Trilogia

Pensamento 01
Ainda não podia escrever sobre você, mas eu sou teimosa até comigo mesma. Isso é um defeito.
Tem medo de altura.
Balança o tronco e aperta os lábios quando está nervoso.
Possui vários sorrisos. E eu odeio aquele de canto de boca. Ou aquele outro de deboche.

Pensamento 02
Meu peão não usa bota ou espora. O couro não está no chicote e, sim no chinelo de padre. Meu peão que não é meu. Tênis e meias brancas. Cinto sem fivela de vaquejada. Blusa sem botão. Cabeça sem chapéu. Príncipe sem cavalo. Devoto de Nossa Senhora. Troca a ordem das mãos ao fazer o sinal da cruz. Come pouco no almoço e muito no jantar. Bebe whisky e cerveja ao mesmo tempo. Cowboy.

Pensamento 03
Nos últimos dias tenho olhado mais que o normal para o porta-retrato com a foto dos meus pais no criado-mudo ao lado da minha cama.
Coisa mais antiquada o tal criado-mudo. Acredito que o meu seja o único que fale, em todo o mundo. De qualquer forma, eu não moro mesmo nesse mundo.
O fato é que a foto está lá, me lembrando a todo tempo que o amor existe.
Ei, ele existe, mas não é para o seu bico.
Tudo bem, eu nem me arriscaria a viver algo tão complicado, intenso e sublime como o amor. Como posso amar se não sei identificar sequer se estou apaixonada.
Minhas mãos deveriam tremer ou algo assim? As vezes eu perco a fome, isso é um indicio? Aos 23 anos a paixão fica um pouco mais complicado do que aos 13. Porque às vezes não é só paixão, vários outros aspectos passam a serem analisados e, nem todos são avaliados necessariamente pelo seu lindo e puro coração.
Coração, suor, cérebro, consciente, inconsciente, ego. É muita gente tentando mandar em uma só. Como posso saber se estou apaixonada?
Eu preciso estar apaixonada para continuar com ele?
Ele está apaixonado?

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Alforria

Não vou me surpreender se você parar de me ligar. Não irei ficar chocada se o bip de mensagem do meu celular parar de cantar todas as manhãs.
Chateada, sim. Chocada, não.
Eu sabia que podia acontecer. O problema é que só entendi isso quando fechei a minha bendita boca. Eu realmente podia ter dito tudo aquilo de outro jeito.
Um jeito mais doce, talvez.
Mais brando. Menos agressivo.
Talvez tenha sido o modo interpelativo que te fez olhar para mim com aquele olhar que eu não gosto e, falar comigo com aquele timbre de voz que detesto. Mas, eu não sei o que acontece comigo. Quando estou com você eu simplesmente não sei como agir, não sei defender o que penso – sobre nós dois.
Falo, mas sempre da maneira errada.
Agora estou com medo de não ter com quem falar no fim do dia.
Caso você pare de me ligar ficarei com raiva. Te xingarei algumas vezes e, não se engane, vou agredir verbalmente a sua mãe em vingança ao fato de não tê-la conhecido – pedirei perdão por isso (à Deus, não à você).
Talvez eu chore um pouco (agora sim, por você, pelos outros e por Deus, que sempre me faz passar por isso).
Se você parar de ligar, saberei o motivo.
Minha dúvida é como você vai parar.
Talvez devagar. Me procura assim, uma vez a cada três ou quatro dias, depois cinco, depois dez. Depois, a gente finge que fui eu que te dei um pé na bunda porque você já não me servia mais.
Talvez rápido. Deixa de me atender. Deixa de me ver. Deixa de me ligar.
Desaparece e, só.
Ainda que não tenha a minha permissão.

sábado, 8 de novembro de 2008

Paranóia (?)

De todas as dúvidas que você causa em mim, esta é a que mais irradia.
Quase fere.
Seja pela minha insegurança, ou pela verdade.
Talvez meia.
Talvez mentira.
Talvez inteira.
E fico ainda mais confusa quando você toca o meu rosto devagar.
É mentira.
E não sei o que pensar quando você parece saná-la.
Amigos?
É verdade.
Não é verdade.
Não tire ela de mim.
Minha perturbadora e companheira, dúvida.
Se os relacionamentos fossem paternais, ela seria hereditária. Eles nascem, morrem e lá está ela como herança para o próximo. É bem verdade que dessa vez a bolsa de valores subiu e ela foi supervalorizada.
Chega quase a doer.
Doeria se fosse certeza.
Enquanto for dúvida, não sei se sofro, não sei se me alegro.
Talvez paranóia.
Talvez sexto sentido.
E a história se repete.
Comigo é sempre assim.
Talvez seja a miopia.
Tomara que seja.
Existe uma diferença entre a realidade e o que eu percebo dela.
Existe?
Tomara que exista.
Não tem jeito; eu devo questionar a minha normalidade.
As pessoas normais enxergam as coisas boas, algumas delas chegam a catar coisas legais, para continuar apostando nelas. E vivendo-as com tranqüilidade.
Eu caço as ruins. O que for ruim manda pra cá porque, afinal de contas, eu preciso subsidiar a minha dúvida. Preciso engordá-la e acarinhá-la como um animalzinho de estimação abstrato.
Mas, é preciso.
Caso morra a minha querida Dúvida, o que farei eu com a Certeza?