terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Vidro.


Todas as vezes que ouço o portão bater desse jeito e eu fico aqui sentada, sozinha, penso o quanto de vidro existe em mim. De vidro eu não queria ser; pessoas de vidro sofrem com medo das curvas, com medo de cair e espalhar pedacinhos minúsculos por toda parte. Pedacinhos minúsculos de mim. Vidro não dá para colar. Até que ponto posso resistir a isso sem trincar? Não quero uma rachadura enorme em mim. Rachadura de vidro fere. Você disse que sou de vidro, mas não sei se acredito em você ou na minha vontade de não ser. Mas se de vidro eu for que seja menos cristal e mais acrílico. Acrílico é vidro? Acrílico não quebra fácil. Talvez se eu fosse mais de acrílico pudesse viver isso que estou com medo, caso seja de vidro. Mas se a queda for muito forte... adeus. Quanto de acrílico existe em mim? Quanto de acrílico preciso para não quebrar caso descubra que sou mesmo de vidro? Como eu protejo o vidro? Se de vidro me fizeram tenho o direito de exigir uma proteção de aço. O aço é forte. Aço não quebra nunca. Sendo aço serei sempre superficial e inviolável. Quanto de aço existe em mim? Se eu for de aço tenho certeza que posso viver o que quero; mas nada vou sentir.

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