
Esse ano Papai Noel não veio. A véspera de Natal se arrastou entre lojas e presentes, mas ele não apareceu. Família reunida, os amigos ali; e ele simplesmente ignorou a data. Nada do trenó iluminado com zilhões de lâmpadas piscas-piscas e renas voadoras cortando o céu como estrela cadente deixando rastro, como fazem os cometas. Não vi nenhuma meia na janela. Analisei diversas árvores de Natal e nenhuma delas servia de esconderijo para duendes ajudantes. Será que todos eles resolveram tirar férias? Em 22 anos nunca vi o Papai Noel faltar na noite de Natal. Deve ter sido o stress, há algum tempo soube que ele andava bem cansado; não, não era de trabalhar não, era com a gente mesmo.
Outro dia fui no bar onde os duendes se reúnem depois do expediente lá da Fábrica de Brinquedos, rever uns amigos, e lá estava a maior fofoca porque o bom velhinho tinha dado um piti mais cedo na fábrica reclamando que nós, humanos, tínhamos esquecido que para ganhar presente no Natal tinha que ter se comportado bem durante todo o ano. “Eles só querem ganhar, ganhar, ganhar, mas ninguém, nenhum deles, anda na linha. Se continuar assim não vai ter presente esse ano”, repetiam os duendes imitando-o e muitos se entreolhavam com aquele ar de “até que enfim ele vai parar de proteger aqueles lá”.
Não, não dava pra achar que estavam todos bêbados porque lá no bar a cerveja na verdade é chocolate quente. Deve ser por isso que são todos bem gordos e dei graças a Deus porque nos nossos happy hours a cerveja é de cerveja mesmo. Nossa famosa barriguinha causada pelo malte é fichinha perto da deles.
Na semana que antecedia a grande noite já achei estranho o Papai Noel não espalhar no ar o pózinho do Espírito de Natal. Senti falta, mas achei que ele tivesse delegado a função para algum duende que esqueceu de fazê-lo. Coitado desse, vai ser demitido com certeza. Só que eu não podia deixar o Natal sem Espírito de Natal, vai ver o Papai Noel nem sabia que isso estava acontecendo, tive que mandar uma mensagem no celular dele:
“Papai Noel! Não brigue com o duende, mas ele esqueceu de espalhar o Espírito de Natal. Grande abraço”.
Adivinhem o que ele me respondeu?
“Oh, alguém sentiu falta?”.
Não entendi nada, aí fui procurar uma amiga duende que trabalha lá na fábrica e ela disse que ele estava bradando de um lado para o outro que esse ano não ia espalhar o Espírito de Natal. Talvez você não tenha percebido porque já estamos condicionado ao Natal e a bondade que cresce em nossos corações nessa época, mas esse ano passamos sem a verdadeiro essência da festa.
Fiquei preocupada com as crianças e minha amiga disse que ele armou um esquema e ia aparecer só para elas, mas que nenhum adulto ia vê-lo esse ano, nem sentir a sua presença. Ela disse também que ele está arrasado, não só pela corrupção e pelos escândalos na política ou pelo tráfico de drogas, fome e balas perdidas, mas conosco, os pupilos civis (como ele nos chama). "Vocês estão se comportando muito mal. São mal-educados, mal-amados, mal-intencionados... e o dinheiro lá, sempre na frente, do lado e atrás". Eu ainda quis nos defender, mas ela logo disse que não respeitamos os deficientes, somos preconceituosos, rimos da desgraça alheia, fofocamos, geramos intrigas, queremos ver o mal daqueles que não gostamos; e pior, nos conformamos com tudo de ruim que acontece, não temos atitudes dignas que façam o mundo melhorar. Ai, ai, ai... não sabia que conformismo era pecado, eu falei. E ela disse que Papai Noel não julgava o que era pecado ou não, mas o que era a nossa função, e segundo ele nosso ideal deveria ser fazer do mundo um lugar melhor para vivermos.
Outro dia fui no bar onde os duendes se reúnem depois do expediente lá da Fábrica de Brinquedos, rever uns amigos, e lá estava a maior fofoca porque o bom velhinho tinha dado um piti mais cedo na fábrica reclamando que nós, humanos, tínhamos esquecido que para ganhar presente no Natal tinha que ter se comportado bem durante todo o ano. “Eles só querem ganhar, ganhar, ganhar, mas ninguém, nenhum deles, anda na linha. Se continuar assim não vai ter presente esse ano”, repetiam os duendes imitando-o e muitos se entreolhavam com aquele ar de “até que enfim ele vai parar de proteger aqueles lá”.
Não, não dava pra achar que estavam todos bêbados porque lá no bar a cerveja na verdade é chocolate quente. Deve ser por isso que são todos bem gordos e dei graças a Deus porque nos nossos happy hours a cerveja é de cerveja mesmo. Nossa famosa barriguinha causada pelo malte é fichinha perto da deles.
Na semana que antecedia a grande noite já achei estranho o Papai Noel não espalhar no ar o pózinho do Espírito de Natal. Senti falta, mas achei que ele tivesse delegado a função para algum duende que esqueceu de fazê-lo. Coitado desse, vai ser demitido com certeza. Só que eu não podia deixar o Natal sem Espírito de Natal, vai ver o Papai Noel nem sabia que isso estava acontecendo, tive que mandar uma mensagem no celular dele:
“Papai Noel! Não brigue com o duende, mas ele esqueceu de espalhar o Espírito de Natal. Grande abraço”.
Adivinhem o que ele me respondeu?
“Oh, alguém sentiu falta?”.
Não entendi nada, aí fui procurar uma amiga duende que trabalha lá na fábrica e ela disse que ele estava bradando de um lado para o outro que esse ano não ia espalhar o Espírito de Natal. Talvez você não tenha percebido porque já estamos condicionado ao Natal e a bondade que cresce em nossos corações nessa época, mas esse ano passamos sem a verdadeiro essência da festa.
Fiquei preocupada com as crianças e minha amiga disse que ele armou um esquema e ia aparecer só para elas, mas que nenhum adulto ia vê-lo esse ano, nem sentir a sua presença. Ela disse também que ele está arrasado, não só pela corrupção e pelos escândalos na política ou pelo tráfico de drogas, fome e balas perdidas, mas conosco, os pupilos civis (como ele nos chama). "Vocês estão se comportando muito mal. São mal-educados, mal-amados, mal-intencionados... e o dinheiro lá, sempre na frente, do lado e atrás". Eu ainda quis nos defender, mas ela logo disse que não respeitamos os deficientes, somos preconceituosos, rimos da desgraça alheia, fofocamos, geramos intrigas, queremos ver o mal daqueles que não gostamos; e pior, nos conformamos com tudo de ruim que acontece, não temos atitudes dignas que façam o mundo melhorar. Ai, ai, ai... não sabia que conformismo era pecado, eu falei. E ela disse que Papai Noel não julgava o que era pecado ou não, mas o que era a nossa função, e segundo ele nosso ideal deveria ser fazer do mundo um lugar melhor para vivermos.
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