quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A ausência do bom velhinho.


Esse ano Papai Noel não veio. A véspera de Natal se arrastou entre lojas e presentes, mas ele não apareceu. Família reunida, os amigos ali; e ele simplesmente ignorou a data. Nada do trenó iluminado com zilhões de lâmpadas piscas-piscas e renas voadoras cortando o céu como estrela cadente deixando rastro, como fazem os cometas. Não vi nenhuma meia na janela. Analisei diversas árvores de Natal e nenhuma delas servia de esconderijo para duendes ajudantes. Será que todos eles resolveram tirar férias? Em 22 anos nunca vi o Papai Noel faltar na noite de Natal. Deve ter sido o stress, há algum tempo soube que ele andava bem cansado; não, não era de trabalhar não, era com a gente mesmo.
Outro dia fui no bar onde os duendes se reúnem depois do expediente lá da Fábrica de Brinquedos, rever uns amigos, e lá estava a maior fofoca porque o bom velhinho tinha dado um piti mais cedo na fábrica reclamando que nós, humanos, tínhamos esquecido que para ganhar presente no Natal tinha que ter se comportado bem durante todo o ano. “Eles só querem ganhar, ganhar, ganhar, mas ninguém, nenhum deles, anda na linha. Se continuar assim não vai ter presente esse ano”, repetiam os duendes imitando-o e muitos se entreolhavam com aquele ar de “até que enfim ele vai parar de proteger aqueles lá”.
Não, não dava pra achar que estavam todos bêbados porque lá no bar a cerveja na verdade é chocolate quente. Deve ser por isso que são todos bem gordos e dei graças a Deus porque nos nossos happy hours a cerveja é de cerveja mesmo. Nossa famosa barriguinha causada pelo malte é fichinha perto da deles.
Na semana que antecedia a grande noite já achei estranho o Papai Noel não espalhar no ar o pózinho do Espírito de Natal. Senti falta, mas achei que ele tivesse delegado a função para algum duende que esqueceu de fazê-lo. Coitado desse, vai ser demitido com certeza. Só que eu não podia deixar o Natal sem Espírito de Natal, vai ver o Papai Noel nem sabia que isso estava acontecendo, tive que mandar uma mensagem no celular dele:

“Papai Noel! Não brigue com o duende, mas ele esqueceu de espalhar o Espírito de Natal. Grande abraço”.

Adivinhem o que ele me respondeu?

“Oh, alguém sentiu falta?”.

Não entendi nada, aí fui procurar uma amiga duende que trabalha lá na fábrica e ela disse que ele estava bradando de um lado para o outro que esse ano não ia espalhar o Espírito de Natal. Talvez você não tenha percebido porque já estamos condicionado ao Natal e a bondade que cresce em nossos corações nessa época, mas esse ano passamos sem a verdadeiro essência da festa.
Fiquei preocupada com as crianças e minha amiga disse que ele armou um esquema e ia aparecer só para elas, mas que nenhum adulto ia vê-lo esse ano, nem sentir a sua presença. Ela disse também que ele está arrasado, não só pela corrupção e pelos escândalos na política ou pelo tráfico de drogas, fome e balas perdidas, mas conosco, os pupilos civis (como ele nos chama). "Vocês estão se comportando muito mal. São mal-educados, mal-amados, mal-intencionados... e o dinheiro lá, sempre na frente, do lado e atrás". Eu ainda quis nos defender, mas ela logo disse que não respeitamos os deficientes, somos preconceituosos, rimos da desgraça alheia, fofocamos, geramos intrigas, queremos ver o mal daqueles que não gostamos; e pior, nos conformamos com tudo de ruim que acontece, não temos atitudes dignas que façam o mundo melhorar. Ai, ai, ai... não sabia que conformismo era pecado, eu falei. E ela disse que Papai Noel não julgava o que era pecado ou não, mas o que era a nossa função, e segundo ele nosso ideal deveria ser fazer do mundo um lugar melhor para vivermos.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

O velho.

É bonita a poética do “novo”, eu concordo. Mas como tudo, na prática... a primeira reação é duvidar que aquilo esteja acontecendo de verdade. Como essa hipótese absolutamente hipotética pode ter sido cogitada, pior que isso, levada a serio? Existem coisas que não podem sair do lugar. O norte e o sul deverão estar sempre lá mesmo que eu nunca saiba ao certo para que lado fica cada um; o Cristo Redentor deve permanecer no Corcovado, mesmo que eu não tenha planos de visitar o Rio; o inverno tem que existir, ainda que eu prefira o verão e minha casa deve continuar sendo a “minha” casa, mesmo que eu só durma na melhor cama do mundo nos meses de dezembro e janeiro.
Viva o novo? Viva as nossa referências. Garanto que em alguns casos ainda vale a pena lutar, já em outros quanto mais cedo você entregar as armas menos sofrerá durante a inútil batalha. E ainda com o nariz retorcido engolimos o novo.
As paredes saem do lugar; não mais dormirei sob o céu de estrelas de néon, pequenos pontos luminosos sem formato por causa da miopia que se apagam ao longo da noite. Não mais sentiremos o cheiro de terra molhada no fim da tarde quando os chuviscos, causados pelo dedo indicador que controla a água que sai da mangueira, tocam o asfalto quente e faz baixar a poeira vermelha. Não mais gritaremos nomes ao vento na certeza de que seus donos virão até nós ao invés de usar o telefone ou outro meio de comunicação mais moderno.
O velho?
Calçada de grama, banheiro com jardim de conchas, rede na sala, sofá na varanda, paredes coloridas, quarto de estar. Cachorro, tartaruga, papagaio, arara adotada. Sempre adaptável. Mutante.
No velho coloridos pontos de luz invadem a casa pela manhã, sinos tocam durante a tarde e o cheiro de incenso recebe a noite. No velho tem acampamento no quarto, barco na garagem e uma mata preservada com insetos curiosos, além de servir de esconderijo para um monstro dócil.
A poética do novo pode ser bonita, mas é o velho que eu amo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Eu nego.

Você encosta sua perna na minha sob a mesa e a trago rapidamente de volta para perto de mim. Essa é a minha forma de dizer não. Você olha nos meus olhos, mas finjo admirar uma tela em branco na parede. Repito, não. Você segura a minha mão propositalmente enquanto me entrega uma taça de champanhe que na pressa em não sentir seu toque suave, por pouco, não deixo cair. Você não entendeu ainda? Estou dizendo não. Certifica-se que ninguém está nos observando, segura firme meu braço e me põe contra a parede. Não! Seu corpo tão próximo do meu que posso sentir seu cheiro, não a fragrância do perfume que todas as mulheres sentem quando você passa, mas aquele cheiro peculiar de madeira, lavanda, suor e o sabonete de rosas do último banho que formam o seu cheiro. Paro de respirar. Tão perto que posso ver meu rosto entregue em seus olhos como em um espelho. Fecho os olhos. Corações ritmados. Preciso fugir. Me debato como um peixe ainda preso ao anzol e você me controla como um bom pescador obstinado a não perder a isca. Sigo a luta em vão. Você não pode se aproximar de mim assim, eu te proíbo. Seus dedos tocam meus lábios. Odeio quando você faz isso. Finalmente, me beija. Finalmente não, porque eu não queria ser beijada; não desse jeito que faz eu me sentir tão grande que não me ajusto em mim e tão pequena que preciso que você me complete. Suas mãos, seus beijos, seu cheiro, sua respiração... Desesperadamente, não.

Limite

Existe, sim, um circulo em torno de cada um de nós. Imaginária, claro, mas isso não significa que ela não funcione. Sim, ele funciona. Aquela linha delimitando “aqui é o meu espaço”. É seu, e de ninguém mais. As vezes nossas linhas ficam assim embaraçadas, mas isso não significa que elas não existam. Sim, elas existem.
Estou assim, com um pé sobre a tal linha vermelha. O apelo da amarela já foi, certeza que em algum daqueles momentos onde eu queria, a qualquer custo, fazer você enxergar o que deveria ser feito.
“Pare!”. Não precisa dizer que é isso que diz a linha vermelha; as crianças aprendem isso ainda na escola. Se as pessoas param, se distanciam, mas é preciso aprender a viver com algumas distâncias.
Terei o pé. Nada mais pode ser feito. Não se pode invadir assim o território vizinho e guiá-lo ao que consideramos a vitória. Não a força. Assim como a salvação à vitória é individual, o sofrimento é individual, a dor é individual, o amor idem. Nós, serem humanos, somos singulares. Um. Não existem pares. Não importa se as atitudes e escolhas de uns influenciam na vida (e trazendo mais para o nosso lado) na dor do outro. Cada um precisa aprender a lidar com as suas próprias experiências.
A algum tempo meu circulo foi invadido. Sendo eu, com tudo que me forma; intensamente eu, não poderia ser diferente. Invadimos os círculos e lutamos por uma vitória comum. Mas as vitórias não são comuns, não quando diz respeito a uma das partes apenas.
Não gosto de distância. Odeio a distância e esse dia tão calado. Mas só ela pode se encarregar para que voltemos aos nossos círculos de origem e permanecemos aqui, limitadas as nossas linhas imaginarias, vivendo alguma parte da nossa vida que não é “nossa”. Não minha, sua. Não sua, minha. Não nossa.
Estou voltando para a linha verde do seu circulo.

Sobre homens

Desconfie dos que te chamam de amor logo depois do primeiro beijo, dos que enfatizam que estão apaixonados dois dias depois de te conhecer e dos que te pedem em namoro quando o clima começa a esquentar. Desconfie dos que não param de te olhar maliciosamente, mesmo com a namorada a tiracolo e dos que se dizem eternos solteiros. Desconfie dos que só ligam durante a madrugada ou dos que sempre preferem programas caseiros. Desconfie dos que desligam o celular ou procuram outro lugar para atendê-lo. Desconfie mais ainda se ele é ignorado quando começa a tocar. Desconfie dos que mandam flores, desconfie dos que ligam e dos que não ligam também. Desconfie dos que somem e depois perguntam porque você desapareceu. Você? Desconfie dos que não acreditam no casamento e dos que não querem ter filhos. Desconfie dos que não trabalham e vivem reclamando da encheção de saco dos pais. Desconfie dos que não tem paciência com a irmã mais nova e bateu tanto no namorado da irmã mais velha que o cara quase foi internado com traumatismo craniano, e disse apenas que estava guardando a honra da moça. Desconfie dos que vivem rodeados de mulheres e dos que bradam colocar os amigos em primeiro lugar, sob qualquer hipótese (leia: cerveja e futebol). Desconfie se ele só disser que te ama para obter algum beneficio e se aparecer chorando depois de te ver com outro, mesmo depois que ele tenha dado um ponto final. Desconfie se ele não te levou para conhecer a família ou está evitando conhecer a sua. Desconfie ou... renda-se a essa paixão filha do puta e seja o que Deus quiser.

Só pensando...

Tudo é uma questão de gostar o suficiente para... Se alguém te trai talvez você goste dela o suficiente para perdoá-la. Se o seu vizinho ouve música alta durante toda a madrugada talvez você goste dele o suficiente para não culpá-lo pela sua péssima noite de sono. Se alguém te liga em um horário totalmente inapropriado talvez você goste dela o suficiente para não ficar irritado. Talvez goste o suficiente para sentir saudade três segundos depois de se despedir. Talvez você goste o suficiente para chorar uma noite inteira e ainda assim conseguir ver no outro o mesmo brilho. Talvez você goste o suficiente para não chorar. Mas, antes de qualquer coisa é preciso gostar o suficiente de nós mesmos e descobrirmos o limite para não sairmos magoados.